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Mudar: No campo possuímos outro tipo de conexão com a vida

Mudar: No campo possuímos outro tipo de conexão com a vida

O campo nunca foi uma hipótese para Maria Couto, era uma menina da cidade do Porto, onde nasceu. Em 2014, a professora de ioga saiu da sua terra para conhecer o mundo. Apaixonou-se pelo Brasil. A vida levou-a a de volta ao Porto, mas Maria já não era a mesma pessoa. Estava grávida e tinha sentido o impacto da natureza. O Porto podia ser um lugar de oportunidades profissionais, mas Maria, tal como eu*, já não se sentia parte da cidade. 

Viveu algum tempo em casa de familiares, mas sentia falta do seu espaço e privacidade. Complicada e desafiante, essa foi a fase em que foi pensando na casa onde desejava viver. Idealizava-a em pensamento e a imagem que surgia era a de um vasto campo verde. Dizem que força do pensamento é mais poderosa do que aquilo que pensamos.

Maria decidiu colocar a casa às costas e a filha ao colo e seguiram-se alguns meses de nomadismo. Desde a Ilha das Flores, que a fez ter a certeza que seria esse o modo de vida que queria proporcionar a Noá, sua filha, a Lagos onde esteve durante umas temporadas e à India que a fez parar e sentir que precisava de estabilidade. Sucedeu-se a casinha na Quinta das Alfaias, nesse retorno a Portugal, que serviu de porto de abrigo na procura de casa em Lagos. Entretanto, chegou-lhe uma proposta de uma amiga para um arrendamento anual na Quinta da Nazaré e, mais uma vez, Maria não resistiu. Mas o sol do Sul fazia-lhe falta e depressa voltou para o Algarve, onde a casa que há tanto tempo idealizava, veio ter até ela (dizem que não há coincidências).

Era tudo aquilo que sonhou: uma pequenina casa térrea, inserida num grande terreno isolado e bem perto do mar. Ficou radiante e não esperou até começar a investir no seu lar. Tudo parecia correr bem, mas numa tarde em que a casa estava vazia, alguém entrou e levou tudo. A ajuda dos amigos e da comunidade vizinha foi essencial para o reerguer desta família e Maria encontrou outro sítio onde ficar. A amiga proprietária da Quinta onde outrora tinha ficado hospedada arrendou-lhe outra casinha e, desde então, é lá que Maria e Noá plantam raízes.

Não vivem no frenesim louco de uma cidade, acordam com as canções dos pássaros, vivem perto dos animais, Noá brinca livremente em campos agrícolas. Os alimentos crescem na terra e é possível acompanhar esse fenómeno. O nascer do sol dá-se atrás das montanhas e as fases da lua são bastante percetíveis. As estrelas têm outro brilho e o sol tem um calor diferente. Maria sente que no campo possuímos outro tipo de conexão com a vida.

Mas, como existe sempre a outra face da moeda, no campo não existem alguns tipos de conforto e acessibilidades. Na cidade, caso não apeteça cozinhar, a pessoa tem acesso a dezenas de opções apenas ao instalar uma aplicação. No campo isso não existe. No Porto estavam a minutos de lojas com produtos específicos, no campo tem de existir uma deslocação até às lojas, por isso, opta-se, muitas vezes, pelas compras on-line. A poluição, ao contrário do que possamos pensar existe nos campos de agricultura não biológica, com uma enorme quantidade de pesticidas e herbicidas. Mas todas estas desvantagens não se sobrepõem ao amor e vontade que Maria sente pela terra, pelo campo.

Agora, com os olhos postos no futuro, mas sem elevadas expectativas, o plano das duas é, nos próximos dois anos, construir uma ‘tiny house’ móvel e colocá-la no mesmo terreno onde estão agora, na Nazaré. O objetivo é ir poupando o valor de uma renda e, a médio longo prazo, comprar um pedaço de terra no Sul, onde possam viver e, até quem sabe, criar uma pequena comunidade com mais famílias de forma a viver da maneira mais sustentável possível.

Fonte: Catarina Beato by Idealista.pt

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